ARTIGO

05/09 - Dia da Amazônia

Imagem de queimadas em área de floresta no sul do Amazonas feita em agosto de 2020 (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

A Amazônia não é apenas uma floresta, a maior floresta tropical do mundo, responsável pelo equilíbrio ambiental da Terra. A Amazônia é muito mais do que podemos conceber. Com mais de quatro milhões de quilômetros quadrados, a floresta amazônica abrange nove países, sendo eles Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname e Venezuela. Quem vive nos grandes centros urbanos, principalmente no Brasil, um bioma de tamanha proporção fica fora do alcance imaginário. Por isso, o dia 5 de setembro foi designado o Dia da Amazônia, e a data foi escolhida como forma de homenagear a criação da Província do Amazonas por D. Pedro II em 1850. Mas apesar da homenagem, hoje a data serve para colocar atenção nos problemas que nas últimas décadas, tem se tornado cada vez mais comuns e intensos, como o desmatamento para o crescimento do agronegócio, da pecuária e as queimadas.

“Pelo terceiro ano consecutivo, o estado do Amazonas bate recordes de queimadas e incêndios florestais. Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2018, foram detectados 2.662 focos de queimadas no Amazonas; em 2019, foram 6.315 focos (alta de 147%); e em 2020, subiu para 7.098 focos (alta de 7%), neste mesmo período.” Amazônia em chamas 20: queimadas consomem árvores e animais no sul do Amazonas. Amazônia, notícia e informação. 2020. Disponível em <https://amazonia.org.br/2020/08/amazonia-em-chamas-20-queimadas-consomem-arvores-e-animais-no-sul-do-amazonas/>. Acesso em: 04 set. 2020

A devastação acontece para abrir campo para os animais que serão posteriormente abatidos e para o cultivo da soja que irá alimentar esses animais. Além de todo dano ambiental e da exploração animal, a soja ainda está ligada ao uso de agrotóxicos, que são ingeridos pelas pessoas que comem a carne animal e, ainda, há o alto consumo de água para a produção da soja. De acordo com a ONU, o uso de agrotóxicos ainda emite uma quantidade enorme de gases nocivos na atmosfera, o que resulta em grandes mudanças climáticas no mundo todo.
A pecuária se mostra cada vez mais contra a vida. Destrói terras, sacrifica animais, envenena a saúde do consumidor das carnes animais e ajuda a diminuir consideravelmente a quantidade disponível de água no mundo.
A floresta, além de toda a importância já citada anteriormente, ajuda a regular o clima e as temperaturas do planeta. Sem floresta, não tem chuva. Sem chuva, não tem água. A floresta é responsável por garantir o sistema de chuvas. E se ficamos sem floresta, ficamos sem água. Todos esses fatores já são conhecidos por nós há algum tempo, mas o que não estava claro antes e agora começamos a entender é que a indústria agropecuária está associada ao governo. O relatório “A farra do boi na Amazônia” (2009), do Greenpeace Brasil, aponta o governo como principal financiador da pecuária. De acordo com o relatório:
“O governo brasileiro possui 2,65 bilhões de dólares em ações de empresas frigoríficas, que se beneficiam do abastecimento barato de gado criado em áreas da Amazônia destruídas ilegalmente. […] O Greenpeace identificou centenas de fazendas no bioma Amazônia fornecendo gado para esses frigoríficos na região. Todas as vezes em que foi possível obter os mapas das propriedades, análises de satélite revelaram que fornecimento significativo de gado vinha de fazendas envolvidas em desmatamento recente e ilegal.”

O tamanho da importância da Amazônia para o mundo e as consequências dos atos contra a sua integridade, apesar de conhecidos e compreendidos por muitas pessoas, ainda requer engajamento e ações efetivas por parte dos líderes governamentais e da população. O desequilíbrio desse vasto bioma é um problema de todes, não apenas daqueles que trabalham para a preservação dessa densa floresta tropical. O que se espera, ao colocar atenção à essa data comemorativa, é que as pessoas falem sobre o que está acontecendo, criem soluções, imaginem formas de mudar o cenário atual. Esse não é mais um problema exclusivamente dos líderes políticos, em verdade, nunca foi. Mas agora fica cada vez mais claro que o engajamento civil é não só apropriado, mas necessário. É uma questão de expandir os horizontes, sair da bolha da individualidade e compreender que a natureza somos nós e nós somos a natureza, não entidades separadas hierarquicamente, com poderes sobre os “mais fracos” ... Como mais fracos, entendemos a natureza, conforme vista pelo homem. No entanto, essa premissa se torna cada vez mais falsa, pois a natureza se mostra a cada dia tão ou mais poderosa que o homem.

O que nós, enquanto sociedade, podemos fazer para reduzir os danos causados por nós mesmos, à Amazônia? O que individualmente ou coletivamente podemos oferecer para que a restauração e a preservação da biodiversidade, da vida pulsante, da saúde da floresta e de nossa saúde aconteça? Seria fácil pensar que nada pode ser feito, por estarmos a milhares de quilômetros de distância física da floresta, mas muito pode ser feito. De acordo com André Carvalhal, para o site Carta Capital: Podemos nos tornar ativistas em favor da floresta, fazer doações ou nos tornarmos voluntários ou voluntárias de alguma organização; podemos reduzir o consumo de carne – de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), eliminar ou reduzir o consumo de carne tem impacto na preservação da floresta... “Em 2014, a ONU afirmou, no seu relatório anual sobre o gerenciamento de recursos sustentáveis, que uma mudança global para uma dieta vegana é vital para salvar o mundo da fome, da escassez dos combustíveis e dos piores impactos das mudanças climáticas” CARVALHAL, André. 10 ações práticas para ajudar a salvar a Amazônia. Carta Capital. 2019. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/opiniao/10-acoes-praticas-para-ajudar-a-salvar-a-amazonia-e-a-voce-mesmo/ e ainda, consumir de forma consciente itens que advém da floresta para uso diário e apoiar marcas que produzem de forma sustentável; apoiar projetos de produtores de orgânicos ou de impacto social positivo e por último, mas definitivamente não menos importante – apoiar a luta dos povos indígenas.

Os povos originários do Brasil também fazem da Amazônia, sua morada. Guardiões e Guardiãs da floresta, de seus segredos, sua medicina, de etnias e línguas variadas, eles e elas seguem lutando por sua casa, por sua ancestralidade que vem sendo roubada desde a colonização portuguesa. Devemos muito àqueles que guardam a floresta com amor, cuidado e respeito. Devemos, ao menos, do lado de cá, lutar por uma Amazônia viva, livre de ameaças para que eles possam continuar suas vidas e seus trabalhos para essa e para as gerações futuras.
“Para nós, povos indígenas da Amazônia, a floresta é nosso berço de origem e de civilização, e nossa condição de existência, física, cultural e espiritual. A Amazônia é nossa Casa Ancestral e Atual, desde sempre. Sua exuberante e gigantesca sociobiodiversidade garantiu ao longo dos tempos o surgimento e desenvolvimento de uma enorme diversidade sociocultural de povos, etnias, línguas, saberes, cosmovisões, ontologias e epistemologias, formados atualmente por povos indígenas, comunidades tradicionais, povos da floresta, ribeirinhos. Com essa condição orgulhosa de filhos da floresta, aprendemos ao longo de milhares de anos a conviver com ela, cuidando dela e tirando dela o que precisamos para viver dignamente, sem nunca ter colocado em risco sua exuberância e sustentabilidade existencial.” BANIWA, Gersem. Indígena e membro da Anistia Internacional Brasil, integrante da Assembleia Geral.

É chegada a hora de uma grande mudança de paradigma. A natureza nos mostra a cada dia que sem ela, não podemos viver. Não apenas pelo aspecto biológico, mas tão respeitoso quanto espiritual, a natureza é uma grande escola. Antigos filósofos gregos, antes mesmo de Sócrates - os chamados Pré-Socráticos - tiveram essa compreensão e passaram a observar e analisar a natureza. Desde então pensadores, estudiosos, cientistas e amantes da natureza tem o cuidado de olhá-la com a devida curiosidade, mas talvez, não tanta reverência pelo grandioso mistério que a compõe. Essa é a mudança de paradigma que precisamos, olhar para a natureza com reverência, com os olhos do respeito, da sabedoria que ela guarda e de tudo o que ainda pode nos ensinar.
“Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, que somos parte de tudo: 70% de água e um monte de outros materiais que nos compõem. E nós criamos essa abstração de unidade, o homem como medida das coisas, e saímos por aí atropelando tudo, num convencimento geral até que todos aceitem que existe uma humanidade com a qual se identificam, agindo no mundo à nossa disposição, pegando o que a gente quiser. Esse contato com outra possibilidade implica escutar, sentir, cheirar, inspirar, expirar aquelas camadas do que ficou fora da gente como “natureza”, mas que por alguma razão ainda se confunde com ela. Tem alguma coisa dessas camadas que é quase-humana: uma camada identificada por nós que está sumindo, que está sendo exterminada da interface de humanos muito-humanos.” Krenak, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo (pp. 37-38). Companhia das Letras. Edição do Kindle.

O indígena, ativista e filósofo Ailton Krenak, fala em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo” que precisamos resgatar nossa memória ancestral, seja ela na floresta ou familiar. Esse resgate é de extrema importância, não só para que possamos entender de onde viemos, mas para onde iremos. Sabendo sobre o chão onde pisamos e toda a estrada percorrida pelos que vieram antes de nós, sobre o que viveram nossos ancestrais familiares e aqueles que estiveram aqui nesse Brasil desde onde a história é conhecida, criamos um senso de empatia socioambiental, criamos coragem para entender que não somos seres individuais desconectados uns dos outros, mas somos um. Um com a nossa espécie e com as demais, com a natureza, com o todo.

A PHASE reforça o seu compromisso socioambiental e regenerativo e busca, dia após dia, inspirar e trazer a consciência holística necessária para entrarmos e vivermos a nova era.
VIVA AMAZÔNIA!